segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Praia

Chegar e palmilhar a areira
sentir nos lábios a maresia
Os olhos cerrados temem a poeira
os ouvidos rodopiam na poesia

os dedos percorrem a linha do mar
os corações batem desefreados
a lingua parece ficar sem ar
o peito troca recados

O amor enche o céu de vermelho
os pés enrolam-se nas ondas
e os dedos amarrotam-se de velho

Até que toca o sino das lendas
deitas-te e o sol enche-te de calor
e eu guardo-te no meu amor.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Verde

Se ouvires o mundo a vencer
deixa no chão a tua vitória
guarda a derrota no teu ser
e lava os olhos da glória

Se entrares no comboio da desgraça
não leves lágrimas na bagagem
entristece-te em plena farsa
mas brilha-te em sorriso toda a viagem

Não te comovas com o mundo
guarda-te bem no teu interior
não te reveles por um segundo

Faz de ti um verde flor
guarda o vermelho lá no fundo
e ignora se tudo o resto perde a cor

Fado

De dentro de um quarto quadrado
encho de negro todo o meu fado
deixo que se decomponha o estado
e dedilho-me todo num bordado

Do fundo de um crânio fechado
queimo em gasolina todo o meu fado
escondo o me coração recortado
e faço do peito um verde prado

Da réstia de um ser cerrado
faço renascer todo o meu fado
revisto o peito de contraplacado

Do interior de um ser renovado
passa a ser brilhante todo o meu fado
e no caminho não há cor senão dourado

segunda-feira, 28 de maio de 2007

7 segundos

Sem o vento sequer lhes tocar
larga no meu ouvido o teu amor
doce como o amarelo de uma flor
em mil palavras no azul a sibilar

Antes de o sol a vir secar
escreve-me esse teu cheiro
transcreve-mo por inteiro
na areia lambida pelo mar

Deixa que se esconda o luar
e pinta no céu mil corações
com estrelas e constelações
que fiquem sempre a brilhar

Espera que o rio corra devagar
tinge nele o teu luzente reflexo
com todo o teu rosto complexo
e o teu imenso sorriso a navegar

Deixa-te florescer em pleno ar
explode-te agora em mil cores
rodeia-te de divertidas flores
e de mãos dadas deixa-te dançar

Sem o sol as vir respirar
Larga as mãos no meu papel
espalha-as por toda a minha pele
e desenha-as a carvão no meu olhar

Antes que a sombra te decida pisar
deixa-te ficar inteira em mim
fica cá dentro até que o fim
se esqueça que tem de te levar

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Conjuga-me

Ouve e rodopia os pés,
deixa no chão o teu amor
pinta-o em flores e estrelas
voa-lhe a cor vermelha.

Dança no meu olhar
dança no meu peito
escreve-te toda em mim
mas lê-me em ti também

Rebusca-me no teu beijo
faz de mim sabor do teu peito
carrega no teu olhar o meu amor
fecha a mão, fecha a mão
e guarda lá sempre o meu cheiro.

Deixa no vento as lágrimas
para que não aclarem o vermelho
deixa-as riscarem-te a cara
desde que intacto o coração.

Faz-te como eu, faz-te minha
faz de mim o teu mundo
faço de mim a tua vida.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Ar-te

Ler-te, Sorrir-te, Falar-te, Gostar-te,
Ver-te, Ansiar-te, Conhecer-te, Gostar-te
Acompanhar-te, Acarinhar-te, Gostar-te
Sufocar-te, Perder-te, ainda assim Gostar-te
Encontrar-te, Olhar-te, Beijar-te, Gostar-te
Respirar-te, Morar-te, Ser-te, Gostar-te
Amar-te, Amar-te.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Coro Fúnebre

Há uma espécie de jardim
com mármores esculpidas
no chão cresce uma erva ruim
as árvores todas torcidas
E do portão não se vê o fim
As estátuas parecem perdidas
Com os pés cercados de alecrim
As suas caras tão sofridas
parecem fazer um motim
As campas parecem cuspidas
directamente do infernal festim
Destoa um anjo de asas estendidas
Suas vestes parecem cetim
Aos pés crescem-lhe margaridas
E sete flores carmim
As suas mãos bem polidas
Seguram bem alto um clarim
À sua volta as jazidas
parecem cantar assim:

"Vinde até à vossa morte
desisti de toda a sorte
Atirem-se no buraco do mundo
Que vos enterram num segundo"